O Monumento situado às margens da Baía de Todos os Santos, tem sua origem no século XVI, a partir da doação de terras a Sebastião Álvares, realizada pelo então Governador-Geral do Brasil, Mem de Sá. A propriedade prosperou ao longo do século XVI e tornou-se um símbolo de riqueza para a família que o administrava. Em 1624, durante a invasão holandesa, o engenho foi atacado e teve suas instalações, incluindo a capela de Nossa Senhora da Piedade, incendiadas.
O engenho foi reconstruído cerca de 60 anos depois, ganhando sua configuração mais conhecida em 1760, quando o Capitão-Mor Cristóvão da Rocha Pita reformulou suas instalações. Sua casa-grande monumental com 55 cômodos é um exemplo raro da arquitetura rural baiana, com pátios internos que favoreciam a iluminação e ventilação, além de uma capela de proporções impressionantes.
Um verdadeiro complexo arquitetônico: espaços meticulosamente planejados para processamento do açúcar: a moagem, o cozimento, a cristalização e o acondicionamento do açúcar seguiam uma lógica funcional. A produção era robusta, mas também enfrentava os desafios do período, como a abolição da escravidão e crises econômicas. Em 1899, o engenho encerrou suas atividades produtivas.
Em 1937, considerando o valor histórico do monumento, a Secretaria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional – SPHAN procedeu ao tombamento, assegurando assim a preservação do conjunto arquitetônico e de seu entorno.
Com o declínio, o engenho passou alternância de proprietários até ser adquirido pelo governo do Estado Bahia em 1968. Restaurado entre os anos de 1970 e 1971, tornou-se o Museu do Recôncavo Wanderley de Pinho.
O espaço que hoje abriga o Museu do Recôncavo Wanderley Pinho, é uma representação simbólica de várias memórias. O engenho concentra uma parte importante da história do Brasil, de um lado a produção açucareira, um dos principais produtos econômicos da época. Por outro lado, é o testemunho da ação do colonizador que reverbera na história dos povos originários na e afro-brasileira.
Uma reflexão sobre seu legado
É fundamental reconhecer que ainda que fosse legitimado, os engenhos foram cenário de exploração por séculos. Da mesma forma, neles encontramos a resistência, onde a força e a cultura dos povos indígenas e dos africanos escravizados moldaram não apenas a economia, mas também a identidade cultural da região e país.
A chegada forçada de africanos escravizados ao Brasil para trabalhar nos engenhos ainda no século XVI, deixou marcas profundas na história e cultura do país. Milhares não sobreviveram à travessia transatlântica nos navios negreiros, e os que conseguiram chegaram em condições desumanas. Apesar disso, desempenharam um papel central na produção de açucareira, sendo os verdadeiros responsáveis pela riqueza gerada nos engenhos.
A cultura indígena influenciou práticas agrícolas e alimentares. No entanto, a presença indígena foi sendo apagada ou assimilada, deixando vestígios que ainda podem ser percebidos em tradições locais. Mesmo diante da opressão, esses indivíduos mantiveram vivas suas tradições, crenças e práticas culturais, desafiando o apagamento histórico. A memória desses indivíduos deve ser central na narrativa sobre o engenho, destacando suas contribuições e sua resiliência diante da violência colonial.
A história do Engenho Freguesia, marcada por períodos de glória e declínio, nos convida ao olhar sob uma perspectiva sobre a força e a resiliência dos povos indígenas e africanos escravizados, a nos lembrar que por trás da grandiosidade econômica existiam desafios humanos e sociais, que deixaram cicatrizes profundas. O Engenho Freguesia não é apenas um marco histórico; é um lugar de memória e reflexão sobre as injustiças do passado, das desigualdades atuais e a importância de celebrar a herança indígena e africana na construção da identidade brasileira.
Resumo elaborado pela museóloga Ana Cristina D. Coelho
REFERÊNCIAS
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